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O Fim do Mundo e o Fim do Ano

É, o fim do mundo não veio… Mas que tal a gente acabar com ele?
Opa, amigo, não se assuste; não estou propondo nem a destruição em massa nem o suicídio, individual ou coletivo. Reflito sobre o que é o mundo.

O mundo, meu chapa, é o que existe dentro de nossa cabeça e fora dela, ou seja, o que imaginamos, em nós, e o que captamos com nossos sentidos, diante de nós.

Lembra-me agora aquela brincadeira de crianças pequenas. A criança está brincando com a gente. Aí, tapa os próprios olhos e nos diz: – Você não existe mais!
Ora, de fato, com esse gesto, e nesse momento, não somente quem está brincando com a criança, mas tudo ao redor dela – ou seja, o mundo – não existe mais. Ela, então, acabou com o mundo.
Brincadeira de criança? Nem tanto, caro amigo. Hoje, 31 de dezembro, o que estaremos fazendo logo mais, senão “acabando” com um ano e criando outro?
Do mesmo modo, convivemos permanentemente com o “fim do mundo”. E não apenas quando imaginamos uma hecatombe que virá e destruirá tudo. Não. Acabamos com o mundo a cada minuto, a cada décimo ou centésimo de segundo. Basta, por exemplo, fecharmos os olhos, ou mudarmos de posição, para acabar com aquele belo pôr-do-sol, a flor, as coisas saborosas…
Felizmente, pode ser assim igualmente com tudo o que detestamos. Basta cerras os olhos ou, intencionalmente, olhar de outra forma, e o mundo acaba. Cessa um mundo e nasce outro, criado com a arma poderosa da possiblidade de ver em outra perspectiva.

Bobagem, dirá você, puerilidade. Eu continuarei sendo eu, com meus problemas, dores e amores, dívidas, sonhos, esperanças, frustrações. Fechar os olhos não pagará meu carnê atrasado nem acabará com a dor que sinto por causa de uma doença, uma perda, uma vicissitude qualquer. O mundo continuará o mesmo – e me ignora; tudo continuará como dantes no quartel de Abrantes.

Estou careca de saber disso, amigo. Mas, talvez sejamos o único animal que tem o benefício do “faz-de-conta”. Portanto, façamos de conta que o mundo não gira em torno de nós; que somos apenas mais um desimportante e ínfimo elemento neste mundo; que a Vida, sim, continuará, impávida, e talvez sorridente, quando não mais existirmos.
Façamos de conta que a dor, a dívida, o belo, o feio, a pobreza, a riqueza, a miséria, a opulência, o bem e o mal, são apenas parte do mundo que criamos em nós.

Fatalismo, você argumentará. Talvez realismo, retrucarei. Pois, se pudermos fechar os olhos, como aquela criança a que me referi aí acima, ou fecharmos mesmo as aberturas dos sentidos todos, inclusive o sentido mais íntimo da alma, para quem crê nela, ou no âmago da existência, para quem não acredita em nada, veremos o quanto o mundo é uma construção de nossos pensamentos.

Mas outra atitude talvez seja possível: ao contrário de negar o mundo, nos sintonizarmos inteiramente com ele; ao invés de prestar atenção em nosso umbigo, esquecermo-nos dele, nos esquecermos de nós, nos perdermos numa fusão perfeita com tudo o que existe, com o mundo como ele realmente é, e não com aquele que desejamos que seja.

Pronto. Feito isso, teremos acabado com o mundo. E podemos criar outro, talvez muito mais verdadeiro e feliz do que esse que vemos aí.

Ainda temos outra vantagem nesta nossa condição humana: a lembrança. O ano acabou, mas podemos gozar em lembrança tudo de bom que vivemos, e, com um esforçozinho, podemos nos esquecer em grande parte do que não prestou.

O ano acabou. O mundo não acabou. Ponto. É isso aí. O fluxo permanente da Vida continua e continuará. Então, que tal a gente inventar um mundo novo no Ano Novo?

J.Carino