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Atracados em Niterói: expedição dá volta ao mundo em busca de tecnologias sustentáveis

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A rotina de atividades de Coco e Elaine é típica do interior, num ambiente que de perto se confunde com uma granja — com galinheiro, hortas, comida na brasa —, mas que na verdade integra um roteiro mais próximo de uma aventura cinematográfica. Os dois franceses vivem há seis meses no catamarã Nomade des Mers (Nômade dos Mares), numa expedição de pesquisa e volta ao mundo com a duração de três anos. Em Niterói há um mês, ancorados no Projeto Grael, eles participaram de uma série de oficinas para ensinar um pouco do que aprenderam e colher conhecimentos locais.

— É apenas o início. Em cada lugar que paramos tem tanta gente legal com boas invenções. Ainda não somos autônomos, compramos as coisas que usamos, mas a ideia é colher ideias, experimentar isso e no fim conseguirmos ser autossuficientes — diz Corentin De Chatelperron, o Coco, de 33 anos, engenheiro e idealizador do projeto.

Aqui no Rio, por exemplo, a dupla está focada na reciclagem de plástico. Na parada anterior, no Recife, eles aprenderam a desenvolver um biodigestor que fabrica gás de fogão a partir de lixo orgânico, como alimentos e dejetos de animais. Estudaram também agroecologia e em contrapartida ensinaram a construir um microgerador de energia eólica, que utiliza um motor de impressora adaptado a uma hélice feita de tubos de PVC que formam um catavento. O invento não custa mais de R$ 30.

— O catavento é um dos favoritos. É tão simples, barato e está sendo realmente muito útil para gerar energia e carregar eletrônicos — conta Elaine Le Floch, de 28 anos, responsável por buscar parceiros de invenções mundo afora.

A primeira impressão é que o barco é uma horta navegante, com plantas por todos os lados. Entre elas, a mais presente é o espinafre, que, segundo Elaine, é rico em proteínas, vitaminas e cresce rapidamente. Há ainda ferramentas e caixas com insetos e larvas pelos cantos. No fundo, um viveiro com quatro galinhas fornece ovos para alimentação. Na parte de baixo do barco, dois quartos e laboratórios de eletrônica e cultivo.

Embora já utilizem os sistemas criados para fornecer água, alimentos e energia, Alguns de Louis-Marie, coordenador da expedição, lembra que não se trata de um experimento de sobrevivência. Sendo assim, em cada porto que param enchem o tanque com água potável e adquirem alimentos para não pôr em risco a saúde do grupo. O deslocamento da embarcação, no entanto, é feito com a força do vento em 90% do tempo.

— Tem pessoas inovando em suas garagens, com invenções incríveis, e ninguém sabe. Aprendemos que no Brasil isso se chama gambiarra. Estamos experimentando a sustentabilidade neste barco graças a essas tecnologias. O que queremos provar é que é possível ser sustentável com apenas engenhosidade e trabalho — resume Louis-Marie.

Da esquerda para a direita, os franceses viajantes Alguns de Louis-Marie, Corentin De Chatelperron, Elaine Le Floch e Hudo Daniel – Guilherme Leporace

Na troca de conhecimentos por aqui, eles desenvolveram na oficina de carpintaria do Projeto Grael um sistema de conservação e um desidratador de alimentos. São caixas de madeira que utilizam a troca de ar e temperatura para prolongar a vida útil de alimentos, substituindo a geladeira. Se estiver maduro demais, uma outra caixa utiliza o sol para desidratar alimentos e prolongar ainda mais.

Thiago Marques, coordenador de meio ambiente do grupo brasileiro conta que eles vão levar tanto o pedaço material do Projeto Grael como o imaterial, que são as recordações da vivência com as crianças das oficinas.

Depois de aprender as tecnologias e os sistemas sustentáveis, eles criam tutoriais de como replicá-las e os disponibilizam no site: www.lowtechlab.org.

Agora, o grupo segue rumo à África, numa viagem de cerca de um mês com apenas uma parada. Depois seguem para Ásia, Polinésia, Américas do Norte e Central, e de volta para a França.


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