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Niterói fecha o mês de setembro com números preocupantes na segurança
Niterói fechou o mês de setembro com três preocupantes e inéditos números na segurança. Os dados oficiais do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que o município registra, em 2016, o recorde de roubos dos últimos dez anos. O levantamento foi feito entre os meses de janeiro e setembro, os últimos disponíveis. Este ano, foram 5.541 ocorrências computadas nas delegacias que atendem à cidade — 76ª DP (Centro), 77ª DP (Icaraí), 78ª DP (Fonseca), 79ª DP (Jurujuba) e 81ª DP (Itaipu). O número agrega todas as modalidades de roubo. No mesmo período de 2007, foram 4.568 casos. A marca de cinco mil foi alcançada pela última vez em 2008, quando ocorreram 5.123 roubos em igual período.
Este, porém, é apenas um recorde. Um dos índices mais confiáveis para se medir a segurança pública, devido à baixa subnotificação, o roubo de veículos também atingiu novo patamar: foram 1.068 carros roubados em Niterói nos primeiros nove meses deste ano. O último recorde é de roubos a estabelecimentos comerciais: foram 268 casos.
Outras modalidades de roubo, embora não tenham chegado ao nível máximo, apresentaram alta em relação a 2015. Foram 308 assaltos a ônibus de janeiro a setembro de 2016 contra 174 no mesmo período do ano passado, alta de 77%. Os números mostram ainda um acentuado crescimento na quantidade de roubos a transeuntes, de 2.298 para 2.772, alta de 20,6%.
BATALHÃO TEM NOVO COMANDANTE
Na terça-feira, o comando-geral da Polícia Militar substituiu o antigo comandante do 12º BPM (Niterói), coronel Fernando Salema, pelo coronel Márcio Rocha, que era chefe do Estado Maior do 1º Comando de Policiamento de Área (CPA). O novo comandante diz que está trabalhando no diagnóstico dos indicadores estratégicos de criminalidade para traçar o plano de sua tropa no combate aos crimes.
— Os indicadores apontam que as áreas que necessitam de maior cuidado são Fonseca, Centro e Zona Sul. São os locais com números mais importantes em termos de violência. Esse é o nosso foco principal — avalia o coronel.
Rocha garante melhorias, apesar do contingente limitado de policiais e recursos.
— Mesmo com o momento de dificuldade no estado, com impacto na atividade policial, tenho experiência e sei que podemos fazer mais e melhor. Vamos buscar uma mudança na atitude e na postura dos policiais. As pessoas querem ver mais a Polícia Militar, querem se sentir protegidas. Essa é a mentalidade que teremos, de estar mais próximos e presentes — frisa.
Ruas de Santa Rosa e Fonseca, regiões apontadas como críticas pelo novo comandante, tiveram arrastões na madrugada de domingo (Rua Mário Viana), de quinta-feira (Rua Noronha Torrezão) e na manhã da sexta-feira (Rua Vinte e Dois de Novembro). Essas regiões são também as com mais relatos de vítimas no aplicativo Onde Fui Roubado, que se apresenta como uma solução ágil para denunciar ocorrências. Embora traga números muito menores do que os oficiais — 147 denúncias este ano —, pela ferramenta é possível ver os pontos exatos onde a incidência criminal é mais alta.
MORADORES PEDEM MAIS POLICIAMENTO
A Avenida Ari Parreiras, por exemplo, soma quatro anotações na plataforma nos últimos três meses: duas por assalto à mão armada, uma de arrastão e uma por roubo mediante intimidação. Quem vive ali diz que falta policiamento.
— A gente fica aqui e quase não vê patrulhas. Nunca fui roubado, mas ouço com frequência os relatos, principalmente de mulheres — disse um taxista que faz ponto na Ari Parreiras.
Na última quarta-feira, a equipe do GLOBO-Niterói circulou por duas horas pelas ruas de Santa Rosa que têm mais roubos relatados no aplicativo. Durante esse tempo, viaturas passaram duas vezes na Rua Mário Viana e na Mariz e Barros; nas vias internas, nenhum policial.
Morador de Santa Rosa, Rodrigo Souza faz coro ao taxista. Ele trabalha próximo de onde ocorreu o arrastão do último domingo, na esquina da Rua Mário Viana com a Travessa Trajano de Moraes, e diz que vê roubos com frequência. Numa mesma semana, no final de setembro, foi vítima de um assalto numa quarta-feira e testemunhou outro dois dias depois.
As estatísticas corroboram o temor de Souza. O local onde mora está inserido na área da 77ª DP (Icaraí), onde, de janeiro a setembro de 2016, foram registrados 1.123 roubos. Trata-se de um aumento de 23% em relação a igual período do ano passado, quando ocorreram 509 crimes deste tipo.
— Tem muito assalto. Os bandidos encostam de moto no ponto de ônibus, pegam celular, carteira e aliança e fogem. Todo mundo sabe que a rua é perigosa. Tem que botar mais policiais para rodar aqui — ressalta Souza.
No Fonseca, os roubos também têm aumentado. Entre as delegacias de Niterói, a do bairro é a campeã em registros de roubos. De janeiro a setembro de 2015, foram 1.341 casos. Em 2016, foi registrada alta de 21%, para a marca de 1.633 ocorrências.
CRIMES GANHAM AS REDES E CLIMA DE MEDO AUMENTA
A quantidade de crimes filmados nas últimas semanas e a velocidade com são divulgados nas redes sociais não deixam dúvida de que há monitoramento na cidade. Só em outubro, o Centro Integrado de Segurança Pública (Cisp) acompanhou 879 ocorrências de todas as naturezas, tanto por imagens quanto pelo 153. A presença das câmeras, contudo, não inibe a ação de criminosos nem diminui o clima de medo nas ruas.
— Hoje existe o monitoramento. As pessoas têm consciência de que isso é importante. A questão toda é que não temos gente para ir atrás. Precisamos de mais efetivo policial na cidade, do contrário o Cisp só vai servir para ver o que está acontecendo — aponta o presidente do Conselho Municipal de Segurança Pública, Leandro Santiago.
Ao todo, o Cisp anotou 5.743 atendimentos este ano. O aparato não contabiliza, contudo, quantos deles se transformaram em ocorrências criminais.
Para ajudar a reverter o quadro, a Comissão de Segurança Pública da Câmara solicitou ao comando-geral da Polícia Militar o envio de tropas especiais para a cidade, como Batalhão de Choque e Batalhão de Operações Especiais (Bope).
— Criminosos do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, vieram apoiar sua facção na retomada de pontos no Fonseca. A coisa está muito ruim. Essas unidades especiais precisam se estabelecer aqui para retomar a sensação de segurança — diz Renato Cariello, presidente da Comissão.
Para tentar driblar a falta de recursos e o baixo efetivo da corporação, os comandantes dos batalhões de Niterói (12º BPM), São Gonçalo (7º BPM) e Itaboraí (35° BPM) acertaram uma parceria. Segundo o coronel Márcio Rocha, do 12º BPM, eles realizarão operações integradas nas três cidades. A união também será importante para conter arrastões na Rodovia Niterói-Manilha, na altura de São Gonçalo; foram dois na última semana.
— A base (da parceria) é o 4º Comando de Policiamento de Área (CPA), que tem subordinadas as unidades de São Gonçalo, Niterói, Cabo Frio e Itaboraí. Nesse sentido, estrategicamente, podem ser realizadas ações conjuntas: policiais militares de outros batalhões podem reforçar o patrulhamento quando for necessário — diz Rocha.
Segundo ele, a parceria já ocorreu semana passada, durante operação no Fonseca. Também haverá mobilização conjunta na parada gay, hoje, em Icaraí.
SEM RUAS DEPOIS DAS 22H
A preocupação com os intensos tiroteios e o aumento nos assaltos fazem moradores mudarem seus hábitos.
— A gente sabe que não pode parar à noite no sinal da (avenida) Ari Parreiras, senão vai ser assaltado — diz uma moradora de Santa Rosa. — Toda madrugada ouço tiroteio e percebo assaltos acontecendo perto de casa, ouço gritaria, barulho de carro. Amigos e vizinhos já foram roubados. A gente está refém da falta de segurança, tem medo de chegar e sair de casa depois das 22h.
Casos de violência marcaram para sempre a vida do ex-taxista José Carlos Batista, de 56 anos, a ponto de ele abandonar a profissão. Batista se viu no limite do estresse depois de ser assaltado três vezes num único mês, em 2012.
— Ao todo foram sete assaltos. Eu não conseguia mais sair de casa. Tive depressão, síndrome do pânico — conta Batista, que hoje trabalha coordenando uma frota num ponto de táxi.
Anunciada há um ano como ferramenta para combater os furtos e roubos de veículos, as câmeras com leitores de placas até hoje não operam na cidade. A prefeitura diz que falta apenas a integração com o banco de dados da Polícia Civil.
“Embora a prefeitura de Niterói já tenha feito todas as instalações e disponibilizado técnico para fazer a integração com a base de dados da Polícia Civil, a Polícia ainda não liberou o acesso ao banco de dados da região de Niterói e São Gonçalo. Esperamos que até o fim da próxima semana o acesso esteja disponível”, informou a prefeitura, em nota.
Fonte: O Globo






