Cidade
Violência impede gestão da Reserva Darcy Ribeiro
Publicado em
Com uma vista de 360 graus e 407 metros de altitude, a Pedra do Cantagalo é o segundo ponto mais alto de Niterói, ficando atrás apenas do Alto Mourão, com 412 metros. Cercado por uma natureza deslumbrante e pouco conhecido até mesmo por niteroienses, o cume teria todos os requisitos para ser o símbolo do montanhismo na cidade não fosse pelo domínio do tráfico de drogas nas trilhas de acesso. Incorporada ao Parque Estadual da Serra da Tiririca (Peset) há cinco anos, a Reserva Ecológica Darcy Ribeiro, criada por lei municipal há duas décadas, continua, em grande parte do seu território, apenas no papel. Ações ambientais e visitações às trilhas na maior área contínua da Mata Atlântica nativa da cidade estão na mira de traficantes e criminosos que utilizam os acessos para desmanche de carros roubados e rota de fuga.
Se a prática das trilhas vem ganhando cada vez mais adeptos e sendo incentivada com novas opções como a recém-inaugurada Travessia Tupinambá, que liga o Parque da Cidade a Piratininga, nas trilhas da Reserva Darcy Ribeiro o passeio não é indicado nem mesmo pela administração do parque, diferentemente do que ocorre em trilhas demarcadas e monitoradas pelo Peset, como o Costão e o Alto Mourão, com placas e presença de guarda-parques. O alerta de perigo também é dado por moradores já na estrada de acesso. Eles aconselham ao trilheiros que não deixem o carro na entrada, pois podem confundir com carro de desmanche e, quando você voltar, estar depenado.
Não existe sinalização indicando o início da trilha. Moradores de boa vontade indicam a entrada, que fica à esquerda. Seguindo direto pela estrada de chão, que liga o bairro ao condomínio Vila Romana, em Pendotiba, dezenas de carcaças abandonadas contrastam com a vegetação predominante da área de proteção. Voltando à trilha da Pedra do Cantagalo, outras surpresas pelo caminho como bichos-preguiça e nascentes de águas cristalinas impressionam ainda mais. Mas o perigo também está por ali: traficantes armados costumam questionar a presença de caminhantes e monitoram a entrada à subida da pedra com radiotransmissores, “autorizando” a escalada final.
Os membros do conselho consultivo do Peset, destacam que o problema na área Darcy Ribeiro é pontual e antigo. E que apesar de ser recomendado cuidado em trilhas próximas a comunidades dominadas por traficantes, nenhuma outra da cidade tem o mesmo perigo que essa.
“Já ouvimos relatos de fiscais que foram retirados e rendidos por traficantes, e já encaminhamos ofícios ao batalhão solicitando um patrulhamento, mesmo que pontual, nos fins de semana. Mas se o patrulhamento no asfalto está difícil com essa crise do estado, imagina nas trilhas, que são ambientes remotos. Sem segurança não é possível exercer qualquer atividade ali, seja de fiscalização ambiental, de monitoramento das trilhas ou de estudo.” conta.
Sem indicar solução, a administração do Parque da Serra da Tiririca admite a deficiência nessa região e diz, em nota, que “infelizmente em alguns pontos do estado temos conflitos dessa natureza e que o Instituto Estadual do Ambiente não coloca em risco seus servidores”.
O coronel Márcio Rocha, do 12º BPM informou não se lembrar de ter recebido demandas sobre a ação de criminosos nessas trilhas. O militar se comprometeu a fazer um levantamento no sistema de inteligência da PM para apurar denúncias e disse que vai procurar a administração do parque para avaliar em conjunto a necessidade de ações. “Talvez haja uma falta de comunicação, mas me coloco à disposição e vou procurar a administração do parque para me inteirar sobre os problemas de segurança nessa região e programarmos ações de patrulha.”
Em nota, a Secretaria municipal de Meio Ambiente, Recursos Hídricos e Sustentabilidade afirma que está planejando elaborar um estudo de recategorização da reserva para enquadrá-la em posição prevista no Sistema Nacional de Unidades de Conservação:
“Tendo em vista que grande parte da área da reserva também faz parte de área anexada ao parque estadual, a secretaria pretende inicialmente transformar a reserva em Parque Natural Municipal, visando à compatibilização de usos e objetivos de conservação, através de uma gestão compartilhada com o órgão estadual.”
Fonte: O globo






