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Crivella, Adelson e os cassinos fluminenses do futuro

Os jogos de azar continuam proibidos no Brasil, como sempre foram desde 1946. Entretanto, muito se vem falando da possibilidade de liberação. Afinal, o Brasil segue na contramão da tendência mundial nessa matéria. A maior parte dos países do mundo, em especial na Europa e nas Américas, apresentam algum tipo de regulação da atividade de cassinos e outros estabelecimentos de jogo, e isso não parece ser fonte de alarmismo social – bem ao contrário de outros temas, como o terrorismo, o tráfico de drogas e outros. As leis de nossos vizinhos permitem o funcionamento de cassinos, sendo bem frequente a operação de estabelecimentos bem junto da fronteira brasileira para “pescar” nossos jogadores, fugindo de nossa legislação.

Para mais, em nossa época, com o crescimento dos cassinos online, a proibição total do jogo parece fazer ainda menos sentido. Afinal, como as plataformas online são baseadas em outros países, o cidadão pode acessá-las e até levantar seus prêmios sem cometer qualquer infração.

Há vários anos, portanto, que grandes empresários nacionais e estrangeiros veem o Brasil como o próximo grande mercado pronto a se abrir à atividade dos cassinos. É nesse ponto da “estória” que entra o maior deles todos: Sheldon Adelson.

Quem é Sheldon Adelson?

Sheldon Adelson é o fundador e CEO da Las Vegas Sands Corporation, uma das maiores empresas do mundo no setor dos cassinos. Além de imensos cassinos na própria Las Vegas, o empresário possui diversos outros interesses por todo o mundo, incluindo o Marina Bay Sands, o cassino situado junto do local onde se realiza o Grande Prêmio de Fórmula 1 de Singapura (por alguns considerado o Mônaco do Oriente, pelas corridas, pelo cassino e pelo glamour envolvente).

Apesar de seus 85 anos (ou talvez, precisamente, por causa deles), Adelson está sempre a identificar grandes oportunidades de negócio. Imagine um país com 200 milhões de habitantes, incluindo duas das maiores metrópoles da América Latina, onde não tem cassinos mas pode vir a ter em breve. É preciso dizer algo mais?

A pressão de Crivella e a promessa de Bolsonaro

As visitas de Adelson ao Brasil vêm se sucedendo. Já por duas vezes ele esteve no Rio de Janeiro, não como um qualquer anônimo mas sendo recebido pelo prefeito Marcelo Crivella. Claro que o prefeito, sentindo a possibilidade de um investimento milionário em sua cidade, e com a necessidade de criar empregos e gerar receita, abriu suas portas e está fazendo sua pressão. Em anos anteriores, ainda se mantinha discreto, mas mais recentemente falou que espera a ajuda do novo presidente, Jair Bolsonaro, para conseguir uma “superlicença” especial e receber o investimento do magnata americano.

E assim se encontram dois grandes símbolos da política conservadora brasileira de nosso tempo, Crivella e Bolsonaro, na linha da frente da liberação dos jogos de azar. Irônico, sem dúvida – e muitos eleitores colocarão algumas dúvidas. Mas os argumentos relativos à criação de emprego serão, talvez mais fortes. E o certo é que Bolsonaro havia falado para uma plateia de empresários do Rio, em meio a campanha eleitoral, que, sendo contra o jogo por princípio, tentaria “arrumar uma saída” (foi notícia no site Valor Econômico). A liberação total do jogo não seria solução, mas para desenvolver o turismo e gerar renda, uma porta estaria aberta.

Recordando o PL 186/14

Mas acontece que o projeto de lei 186/14, há vários anos debatido no Congresso (desde 2014, como seu nome indica), não prevê essa ideia de “superlicença” que Crivella falou para a mídia. Pelo contrário, o projeto estabelece um regime justo e igual para todas as cidades e estados, em todo o território nacional. Com esse esquema, haveria licenças para cassinos dependendo da população em cada estado:

– três cassinos, se o estado tiver mais de 25 milhões de habitantes;

– dois cassinos, se o estado tiver entre 15 e 25 milhões;

– um cassino, para os restantes.

Isso significa que viriam dois cassinos para o território do Rio de Janeiro. Mas, mais importante do que isso, o PL 186/14 prevê um concurso público para a atribuição dessas licenças.

O que sobra para Niterói?

Certamente que não deveria ser o prefeito do Rio, através de seu político e midiático ou mesmo através de sua amizade com o presidente da República, a tomar de forma unilateral essa decisão de estabelecer um monopólio para Adelson na capital estadual.

No mais, estamos certos de que Niterói seria uma excelente candidata a receber uma dessas infraestruturas. Imagine que um empresário como Adelson arruma uma forma de investir no Caminho Niemeyer, injetando o capital que falta por ali, e no caminho criar um grande centro turístico, de diversão e entretenimento. Quem diz que só uma das margens da baía de Guanabara tem direito a receber esse investimento?

Estamos certos que a prefeitura niteroiense dará a atenção necessária a esse tema, para defender da melhor forma os interesses da cidade nessa matéria.

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